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BC amplia onda de liquidações e chega a 17 instituições

08 / 07 / 26

O Banco Central (BC) liquidou 17 instituições financeiras entre 2025 e este ano. Na maior parte dos casos, as instituições tinham ligação com o Banco Master. As ações ocorrem em meio a um cenário de aumento da regulação e supervisão sobre instituições do ecossistema financeiro e casos de fraudes. Nesta sexta-feira (26/6), inclusive, o BC adicionou mais um nome na lista: a Sefer Investimentos DTVM. A expectativa dos especialistas é de que o Digimais, banco digital do bispo Edir Macedo, investigado por fraude, também entre nessa conta.

Entre as instituições liquidadas até agora está o próprio Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. A instituição entrou inicialmente em regime de tutela após investigações da Operação Compliance Zero. Além disso, o BC também atingiu empresas ligadas ao conglomerado Master. Nesse grupo estão a CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, Will Financeira, Banco Pleno e a Pleno Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (veja a lista completa abaixo).

São 13 liquidações apenas em 2026, incluindo o Master. Em 2025, foram quatro. Em 2024, foram duas. Já em 2023, um ano mais movimentado, ocorreram seis liquidações, em sua maioria por falência. Apesar do aumento neste ano, especialistas afirmam que o movimento não indica uma crise sistêmica.

Crise concentrada e não sistêmica

Para Fábio Coimbra, conselheiro de administração e executivo com 21 anos de atuação no BC, o quadro observado até aqui se assemelha mais a uma crise concentrada em instituições específicas, grupos econômicos e modelos de negócio frágeis.

“Isso não significa que seja irrelevante. O número de liquidações é expressivo e exige atenção. Mas, até o momento, não há sinal de ruptura ampla do sistema bancário, nem de contágio generalizado”, diz Fábio.

A diferença está menos na quantidade de instituições liquidadas e mais na forma como os riscos se conectam e na interconexão entre eles.

“Parece, para mim, mais um risco atrelado a modelo de negócios replicado em estruturas que compartilhavam o mesmo DNA. Cada um com sua particularidade, mas praticamente todos os casos de liquidação combinavam liquidez deteriorada somada a infrações normativas”, opina Bruno Tanus, sócio do Andrade Maia Advogados.

Bancos digitais não escapam

Em 2025, a fila de instituições liquidadas começou pelo Banco Master de Investimento. Em seguida, o BC atingiu Letsbank e Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, todas do mesmo conglomerado. Depois, o Banco Master Múltiplo entrou em regime de Administração Especial Temporária (Raet). A liquidação extrajudicial ocorreu apenas neste ano.

A lista aumentou em 2026. O BC incluiu a Will Financeira, a CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e a Advanced Corretora de Câmbio. A CBSF tinha ligação com o grupo Reag, investigado por suspeita de envolvimento com o crime organizado. Já a Advanced não tinha relação com os demais casos e foi considerada insolvente.

Em fevereiro, o BC liquidou o Banco Pleno e o Pleno DTVM. As duas instituições faziam parte do conglomerado ligado ao Banco Master até 2025. O controle passou para o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, poucos meses antes da liquidação.

Em março, o BC decretou a primeira liquidação de uma sociedade de crédito direto. A Dank Sociedade de Crédito Direto entrou na lista.

Novas liquidações incluem grupo Entrepay e Sefer

Em seguida, a autarquia incluiu Entrepay Instituição de Pagamento, Acqio Adquirência Instituição de Pagamento e Octa Sociedade de Crédito Direto. O regulador apontou deterioração da situação econômico-financeira da instituição líder, infrações regulatórias e riscos aos credores. Há alegações sobre relação dessas casas com Daniel Vorcaro, preso no esquema do Master. Contudo, essas ligações não foram confirmadas oficialmente.

Em abril, o BC liquidou a Creditag e a Frente Corretora de Câmbio. A cooperativa teve deterioração grave da situação econômico-financeira. Já a corretora acumulou exigências regulatórias e perda de capital. Nesta sexta-feira (26/6), o BC incluiu a Sefer Investimentos Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários na lista.

Segundo os investigadores, Benjamin Botelho de Almeida, dono da Safer, atuaria como um dos articuladores do esquema envolvendo fundos e títulos considerados problemáticos.

Em nota, o BC disse que a decisão foi motivada por comprometimento da situação econômico-financeira da instituição. A empresa também foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, iniciada em 2024 e ainda em andamento. As investigações apuram um esquema de fraudes, corrupção e lavagem de dinheiro ligado ao Banco Master.

Sistema segue estável

Apesar das liquidações, especialistas apontam que o Sistema Financeiro brasileiro (SFN) segue em boa condição. Pedro Abrão, advogado especializado em instituições financeiras e de pagamento, diz que o Índice de Basileia do SFN fechou 2025 em 17,24%, muito acima do mínimo. Os testes de estresse do “Relatório de Estabilidade Financeira” de maio também apontaram capacidade de absorção de choques em todos os cenários.

“A métrica de risco sistêmico nunca é a contagem de CNPJs liquidados, e sim a fração dos ativos e a presença de contágio. Em ambas, o sistema passou no teste”, diz Pedro.

Segundo os especialistas, as liquidações têm origem em modelos de negócio insustentáveis. Em muitos casos, houve falhas graves de governança e episódios de fraude. A alta dos juros agravou esse quadro. Primeiro, os problemas viraram de solvência. Depois, evoluíram para falta de liquidez.

Atuação tardia

Um ponto comum citado pelos entrevistados é a avaliação de risco baseada na existência de garantias, captação ou aparência de normalidade operacional. Esse modelo, especialmente com apoio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), levou o fundo a uma exposição que já supera R$ 57 bilhões. Para o BC, falta enforcement, ou seja, cumprimento efetivo das regras.

Por um lado, as liquidações mostram que a resolução bancária funcionou, com identificação de fragilidades e pagamento das garantias pelo FGC. Por outro lado, especialistas dizem que a supervisão preventiva e os incentivos ainda precisam de ajustes.

Além disso, na avaliação de parte do mercado, o BC poderia ter atuado antes diante de alguns sinais. O custo dessa demora aparece no próprio FGC. No caso do Banco Master, por exemplo, a intervenção foi tardia, segundo Pedro Abrão. Ele cita problemas como falhas de governança e carteiras inconsistentes acumuladas ao longo do tempo.

“O ponto não é que se autorizaram instituições demais [novos entrantes são bons], e sim que faltou calibrar a supervisão ao perfil de risco do modelo, não ao porte”, explica o advogado.

Atenção redobrada

Após o ocorrido, o BC passou a adotar uma postura mais preventiva. No caso do Digimais, por exemplo, a apuração teve origem em relatórios de supervisão da própria autarquia, que acompanhava a instituição desde 2023. Na segunda-feira (22/6), a Fitch rebaixou o rating do banco.

Já na terça-feira (23/6), a Polícia Federal deflagrou operação antes de uma quebra desordenada, o que preservou alternativas como venda ou capitalização. Agora, o mercado avalia a possibilidade de liquidação do banco.

O número de instituições liquidadas indica que fragilidades se acumularam em alguns modelos, estruturas de governança e arranjos de intermediação financeira. Isso acende um alerta sobre supervisão, qualidade de controles e governança. Para os especialistas, a questão daqui para a frente não está mais na capacidade de resolver bancos quebrados, mas sim em identificar riscos e agir antes da insolvência.

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